Herdeiro e responsável pela companha de arte xávega Senhor dos Aflitos, na Praia de Mira, Paulo Monteiro é a segunda geração a comandar o destino deste barco, um nome que o seu pai manteve mesmo depois de um acidente que partiu a embarcação original. Aos 51 anos, carrega consigo cinco décadas de ligação ao mar, para onde foi pela primeira vez aos 12 anos. Eis o seu testemunho.
“O mar é que manda”
Chamo-me Paulo Monteiro e sou o responsável pela companha de arte xávega Senhor dos Aflitos, aqui na Praia de Mira. A minha ligação a isto começou pelo meu pai. Quando eu nasci, ele já cá estava. Já acompanho isto há uns cinquenta anos.
Comecei a trabalhar muito cedo, com doze anos. Assim que acabei a escola, no sexto ano, vim logo para a praia. O meu pai foi o primeiro nesta companha, e agora sou eu a segunda geração. O barco chama-se Senhor dos Aflitos, o mesmo nome que o meu pai lhe deu. Ele partiu o barco todo num acidente e depois comprou outro na Leirosa, mas manteve o nome.

Quando há peixe, há alegria, há ganho, e a malta fica contente.
Paulo Monteiro
Isto funciona assim: de manhã, vai-se com o barco, mete-se na água com uma corda ligada à terra e vai-se uns dois mil metros lá para fora. Mete-se a rede, volta-se com o outro cabo para a terra, e aí faz-se a maior parte do trabalho – puxar as redes para dentro.
Mudou muito desde que comecei. Agora trabalha-se mais à base das máquinas. Antes era com os animais; quando eu comecei ainda havia juntas de bois, além dos tratores. Agora trabalha-se com menos gente. Antes éramos 20, 30, 40 pessoas; agora somos 15 a fazer o mesmo. Mas o mar… o mar é que manda. Este ano até tem estado calmo, mas o peixe é pouco. Há anos fracos. Isto é uma pesca sazonal, não dá para pescar o ano inteiro. Quando o mar está bravo, não há nada a fazer.

O dia mais feliz aqui na praia é quando há peixe. Quando há peixe, há alegria, há ganho, e a malta fica contente. O que me faz continuar, apesar de tudo, é a ligação ao mar. Desde menino que venho para aqui com o meu pai. Fiquei com o gosto. É pena isto estar a acabar, mas não é por falta de gente — é por falta de país. Está tudo a acabar com esta arte. Gosto mesmo é de ir ao mar. Ir ao mar, mesmo com ele bravo. É duro, mas é o que gosto. E quando há peixe, compensa tudo.
O principal desafio era ver se isto chegava mais longe… mas já não acredito muito. Isto está a acabar. Manter o negócio assim é muito difícil. É um lance por dia, e mesmo assim é duro. Antigamente havia sete, oito barcos aqui. Havia peixe, havia peixeiros, rendia mais. Agora há um ou dois compradores, e às vezes dão o preço que querem. Esta pesca já foi boa, agora está muito fraca.
Sou o arrais, que é a pessoa encartada que comanda o barco e é responsável pela companha. Tenho um filho, mas ainda é pequenino. Já não tenho muita esperança que ele venha a seguir isto. Estes últimos anos têm sido muito fracos. Isto implica muito dinheiro. Se não houver peixe para cobrir as despesas, não se aguenta. O ano passado nem deu para as despesas. Se este ano for igual, temos de desistir.
As despesas são grandes. Temos de pagar segurança social — são mais de 3.000 euros de três em três meses. O ano passado ainda fiquei a dever 4.000 e tal. Este ano mais 7.000. As máquinas vão para conserto, são velhas, gastam muito. Antes de começar a safra já se deve 10 mil euros. E arranjar gente nova é difícil. O meu colega José Vieira ainda apanha uns mais novos, mas é pessoal complicado. Aguento-me com os que cá estão. Quando acabarem, acabou.

A maioria das pessoas gosta de ver. Acham bonito, gostam do espetáculo. Mas há quem não goste — os defensores dos golfinhos, por exemplo. Dizem que matamos golfinhos, mas isso é mentira. Não matamos golfinhos nenhuns.
O peixe que pescamos vai quase todo para Lisboa. O carapau pequeno, frito. A nossa sardinha aqui não tem venda. Às vezes vendemos daqui, à saca, mas é raro. A vida do mar é esta: é preciso vender, senão não há nada. E é assim que se vive, com o sol e o mar.
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