Na Praia de Mira, o dia começa no escuro. Ao som dos tratores, homens como Zé Dólar e Paulo lançam os barcos ao mar, herdando um ritual secular. Na vizinha Tocha, Judite comanda a companha do pai e o seu filho Tiago equilibra a pesca com a serralharia. Entre a memória e a incerteza, a luta diária que as poucas companhas que ainda resistem na zona da Gândara não é só por peixe. É um ato de resistência, onde se puxa não apenas a rede, mas o próprio tempo, num duelo teimoso contra o esquecimento.

Em Mira e na Tocha os tratores ainda lavram o mar
O primeiro sinal de vida na Praia de Mira chega muito antes da luz. Por volta das cinco da manhã, um zumbido baixo começa a romper o silêncio da orla marítima. Não são pássaros; são os motores a diesel dos tratores.
No crepúsculo azul-acinzentado, alguns vultos movem-se com uma urgência contida. Homens de boné, mesmo sem sol, e casacos encapotados encaminham os tratores para a praia, aproximam-se do local onde os barcos repousam como gigantes adormecidos. O ar cheira a gasóleo, a maresia e há um ligeiro odor a café — alguém pediu ajuda à bebida para manter as pálpebras abertas. É a abertura de mais um ato num drama quotidiano que se repete há gerações. Na zona da Gândara, ainda vemos duas companhas na Praia de Mira e uma na Praia da Tocha.
Às 6h24, o capitão da embarcação do Zé Dólar grita a ordem: “Ponham as máquinas a trabalhar!” O comando ecoa na praia, e o barco, um dos maiores de Mira, é lançado contra as ondas. A sua rede é um monstro marinho, uma única “manga” que se estende por um quilómetro, superando as duas redes somadas do Tiago, na vizinha Tocha. É uma operação de escala industrial, mas ainda assim artesanal no seu coração.
Às 7h09, o barco regressa, a sua missão no mar concluída. Segue-se a longa e agonizante espera enquanto os tratores, com a lentidão de uma procissão, puxam as intermináveis cordas. A tensão é palpável. Só às 8h47, quando o saco — o ventre da rede — é finalmente arrastado para a areia húmida, se revela a recompensa.

Só quando o saco de Zé Dólar está a chegar a terra é que a companha Senhor dos Aflitos se faz ao mar. Nos anos em que havia muito peixe ou em que as redes eram mais curtas, seguia-se uma companha atrás da outra. Agora, a primeira que tem a sorte de entrar no mar obriga a segunda a esperar a sua vez.
Altino, o transmontano habituado a vender peixe na orla da praia, estima que o primeiro lance do dia tenha rendido pouco mais de 1.500 euros. Altino já trabalhou na companha Alexandre Vieira. Agora trabalha no Senhor dos Aflitos. Estima, à vista desarmada, que o primeiro lance do ex-patrão daria uns 60 euros a cada pescador envolvido. Não parece muito, para tantas horas de trabalho e tanto perigo à espreita. E é de facto pouco, se pensarmos que no passado houve lances em que cada pescador ganhou mais de 800 euros.
Bonito é quando somos crianças. Quando chegamos a homens isto já não tem piada nenhuma.
Calau
O percurso de vida de Altino Augusto Neno é tão improvável quanto duro: fugiu da fome de Trás-os-Montes, viveu uma juventude de prosperidade em Angola e regressou a Portugal após o 25 de Abril, reencontrando na pesca um chão firme. Hoje, é figura conhecida na praia, respeitado pelo jeito de vender peixe e pela frontalidade com que fala das durezas da vida.
Agora é mais fácil ouvir o discurso que Zé Dólar fez para a mulher, casado em segundas núpcias, depois de ter feito um segundo lance, na parte da tarde. “Se deu alguma coisa? Não deu nada. Deu dores de cabeça. E bêbados”, ironiza. Mas na rede estava um solitário pregado — guarda-o para o jantar.

José Vieira é presidente da Associação de Pescadores de Arte Xávega. Nunca deixa para os outros aquilo que acha importante ser dito. Reclama de tudo com todos, mesmo que seja impopular. “Isto bem gerido, dá para todos. Já fiz todo o tipo de pesca e andei em todos os tipos de barcos, pesquei em toda a costa atlântica. Mas esta aqui, a arte xávega, é a melhor de todas. Estou mais tempo em terra do que no mar, estou perto de casa e lido com muitos turistas de todo o mundo.”
Paulo Monteiro, mestre da companha Senhor dos Aflitos, partilha da mesma luta quotidiana. Com os seus 15 elementos, enfrenta uma realidade cada vez mais dura. “Nos últimos anos tem dado muito pouco, e a mútua dos pescadores está muito cara. Não dá para as despesas”, confessa. Para ele, como para muitos, a xávega já não é suficiente para sustentar uma família. “Bonito é quando somos crianças”, reflete um dos veteranos, Calau, olhando para o horizonte. “Quando chegamos a homens isto já não tem piada nenhuma.” Mas ele, que andou 13 anos no bacalhau, dois anos na sardinha e 21 nos arrastões, quando se reformou, voltou para a pesca. Não lhe resiste.
Os últimos herdeiros
Estes homens são os últimos herdeiros — e as últimas testemunhas — de uma comunidade literalmente criada pelo oceano. Uma comunidade que se tem reinventado e adaptado, tanto como a própria aldeia. Mas a comunidade de Mira não se rende; adapta-se.
No passado, os icónicos palheiros de madeira — habitações e armazéns de apetrechos de pesca — estendiam-se “até à capela” da Senhora da Conceição, a padroeira a quem os pescadores sempre dirigiram preces e de quem esperam proteção. Restam hoje apenas três dessas estruturas, testemunhas silenciosas de um aglomerado piscatório que a geógrafa Raquel Soeiro de Brito imortalizou na sua monografia de 1960, Palheiros de Mira – Formação e Declínio de um Aglomerado de Pescadores.
E o Bairro Norte, construído para realojar os pescadores quando uma regra sanitária proibiu os palheiros, é agora o reduto dos homens do mar. É onde Zé Dólar tem a sua casa, é onde Paulo Monteiro também vive, na mesma rua — não lado a lado, mas quase frente a frente.
Paulo tem também um café-restaurante, onde trabalha com a mulher todo o ano. Zé Dólar, como tantos vizinhos, tem casas no quintal, alugadas a turistas. São “puxadinhos”, mais ou menos clandestinos — um sinal dos novos tempos, onde o turismo se tornou complemento vital à economia incerta do peixe.

Susana Dimas é um desses rostos de renovação e resiliência. Com dois avós que andaram na arte xávega e um filho que, durante um ano, também experimentou a faina, ela representa a transição. Juntamente com o marido, pegou no restaurante do avô, João Lila. João é uma lenda local, um homem de 90 anos cuja vida daria um romance marítimo: chegou a ir à Terra Nova à pesca do bacalhau, dedicou a vida ao mar, mas nos últimos 50 anos esteve quase sempre atrás do fogão, a transformar o peixe em gastronomia. Do pitéu de raia à sardinha na telha, passando pela batata assada na areia, João ajudou a reinventar a economia local.
Desafiar a incerteza

Na vizinha Praia da Tocha, no concelho de Cantanhede, o contraste entre a herança e a realidade contemporânea mostra-se ainda mais nítido e comovente. Ali, Judite Gonçalves herdou a companha do pai após um trágico acidente no mar. É uma das raras mulheres a comandar uma arte xávega, não no barco, mas na coordenação em terra — uma presença firme e serena na areia, a gerir logísticas, vendas e o moral da equipa.
O filho, Tiago Amaro, cresceu neste mundo de esforço e paixão. “Quem nasceu nisto é que sabe como é que isto é. A arte tem outro significado”, confessa, enquanto supervisiona os preparativos para o lance com um olho no trator e outro no estado do mar.

Aos trinta e poucos anos, Tiago é a ponte viva entre gerações. A sua função evoluiu com o tempo. Já foi o miúdo encarregado de “meter as boias” ou de “engatar a cinta quando era para puxar o saco”. Hoje, é ele quem empurra o barco para a água e coordena a pequena equipa de seis homens — um número que ressalta outra face dramática da luta. “A parte mais difícil é arranjar pessoal para trabalhar”, explica.
Enquanto em Mira existe uma comunidade piscatória consolidada, com reformados de outras fainas, na Tocha a equipa é feita de homens que, como ele, têm outro emprego — no seu caso, numa serralharia — e para quem a pesca é uma paixão que exige sacrifício e compreensão familiar e patronal.
O maior sacrifício, comum a Mira e Tocha, é a incerteza. Tiago define a xávega com a precisão de quem a vive na pele: é uma “arte cega”. “Nunca sabemos o que é que vai lá na rede. Sabemos quando chega a bordo”, diz.
Um dia pode trazer a alegria efémera de um bom lance de carapau, a espécie que ainda “se vende melhor”; no seguinte, a rede pode vir vazia, “embrulhada” ou com o saco atado por um descuido, trazendo “nadinha mesmo”. “A despesa é certa”, lembra, enumerando: gasolina no barco, gasóleo nos tratores, comida e salário para o pessoal, seguros, licenças. “A receita, não.” Este ano, como na própria Mira, a pesca “está muito fraca. Muito pouco peixe.”

Na Praia da Tocha e na Praia de Mira, o quotidiano não é um museu ao ar livre nem uma representação folclórica para turistas. Eles estão por ali, por todo o lado. Na Praia de Mira destaca-se a oferta de parques de campismo — há três, dois deles municipais. Na Praia da Tocha, a comunidade de surfistas cresceu e assentou praça, convivendo com os pescadores. Mas há lugar para todos.
É uma luta diária e tangível, um ato de amor teimoso a uma tradição e um exercício de coragem perante um futuro incerto. São rostos como os de Judite, Tiago, Zé Dólar, Paulo, Susana, o velho João Lila, Calau e Altino que, juntos, formam o dique de contenção. Eles mantêm viva uma forma de vida antiga, puxando não uma simples corda, mas o próprio tempo, na esperança frágil e teimosa de que a arte xávega — com os seus cheiros, sons e sabores — não se perca para sempre no vasto e indiferente oceano do esquecimento. E, enquanto houver um lance por fazer, lá estarão eles, na areia, ao nascer do sol, a desafiar o mar.
Mais sobre a Praia de Mira (e Tocha)
Paulo Monteiro, o mestre do Senhor dos Aflitos
Herdeiro e responsável pela companha de arte xávega ‘Senhor dos Aflitos’, na Praia de Mira, Paulo Monteiro é a segunda geração a comandar o destino deste barco, um nome que o seu pai manteve mesmo depois de um acidente que partiu a embarcação original. Aos 51 anos, carrega consigo cinco décadas de ligação ao mar, para onde foi pela primeira vez aos 12 anos.
Judite Gonçalves, a guardiã da Pouca Sorte
Na Praia da Tocha, é o rosto e a força por trás da companha de arte xávega “Pouca Sorte”, que herdou do pai após ele ter falecido no mar. Com 62 anos, dos quais 36 dedicados a esta arte, Judite é uma das raras mulheres a comandar uma companha, desbravando um caminho tradicionalmente masculino com determinação e um profundo sentido de missão.
Evangelista Loureiro, o Mestre Gadelha
Construtor naval de gema, Evangelista Loureiro, conhecido por Mestre Gadelha, é o guardião de um saber familiar com mais de quatro gerações. Aos 78 anos, mantém viva a arte de construir barcos de madeira para a arte xávega, moliceiros e botes de passeio, numa oficina onde o tempo parece ter parado. Num mundo que mudou à sua volta, ele permanece como a memória viva de um ofício que resiste, não pelo lucro, mas por pura paixão.
José Vieira, o Zé Dólar
Pai, arquiteto, músico autodidata, é o rosto por trás da oficina de gaitas de foles de Bravães, em Ponte da Barca. Entre aulas, construção de instrumentos e encontros de música tradicional, Rafael promove a cultura local como ferramenta de inclusão e pertença, com raízes fundas no território que o viu nascer.
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