Construtor naval de gema, Evangelista Loureiro, conhecido por Mestre Gadelha, é o guardião de um saber familiar com mais de quatro gerações. Aos 78 anos, mantém viva a arte de construir barcos de madeira para a arte xávega, moliceiros e botes de passeio, numa oficina onde o tempo parece ter parado. Num mundo que mudou à sua volta, ele permanece como a memória viva de um ofício que resiste, não pelo lucro, mas por pura paixão. Eis o seu testemunho.

“A madeira é viva, tem alma”
Chamo-me Evangelista Loureiro, tenho 78 anos e sou construtor de barcos, um ofício que já vem do meu bisavô. São quatro ou cinco gerações a passar esta arte de pais para filhos, sempre da mesma maneira.
Aprendi com o meu pai, e ele com o dele. Nasci no meio deste trabalho e, desde pequeno, via como era tudo feito à mão. Não havia máquinas. Era tudo a serrote, a enxó, a plaina, só a braço. A eletricidade só chegou aqui quando eu era adolescente. Até lá, era ginásio puro, só músculo.

Antes, isto dava para viver. Havia catorze companhas de xávega na costa, agora há duas.
Evangelista Loureiro
Ao longo da vida, fiz de tudo um pouco: barcos da arte xávega, que são especiais, em forma de meia-lua para aguentar o nosso mar bravo; moliceiros, que são os mais bonitos e trabalhosos; e botes de passeio, como este dório que estou a fazer agora para a Lagoa.
O mais difícil é montar o barco. É a parte mais desafiante. Um barco tem três fases: a navegação, a posição e a estética. Tem de se acertar tudo. Mas a minha maior alegria é vê-lo a ganhar forma e, no final, pô-lo no mar e vê-lo a navegar direitinho. Nenhum barco meu se afundou. É a prova de que estão bem feitos.
Nunca quis trabalhar com fibra. Só madeira. Para mim, a madeira é viva, tem alma. Já fui ao mar para experimentar o meu trabalho, mas pescador nunca fui. Gosto é de terra firme.

Antes, isto dava para viver. Havia catorze companhas de xávega na costa, agora há duas. Fazia barcos novos e muitas reparações todos os anos. Agora as encomendas são poucas. A arte está a desaparecer. Nunca quis mudar de vida, nem emigrar como fizeram muitos dos meus irmãos. Quem ganha a vida aqui não precisa de ir para fora. Isto nunca deu fortuna, mas deu para viver, e para mim isso sempre chegou.
Tenho setenta e oito anos e passo aqui quase todo o meu tempo. Venho de manhã, vou à horta ao fim do dia. É uma vida sossegada. Às vezes faço barcos só por gosto. Se aparecer alguém que queira comprar, vendo. Se não, fica.
Os meus filhos não seguiram o ofício. Um está no Porto, outro é engenheiro informático. É outra vida, ganha-se mais e trabalha-se menos. Agora trabalho normalmente sozinho, mas às vezes a minha filha vem ajudar-me.
A madeira vem dos nossos pinhais. Já não há como dantes, os fogos de 2017 estragaram muita madeira boa. Escolho-a ainda no pinhal: tem de ser boa, direita, com veios certos. Depois uso moldes, alguns em madeira, outros na cabeça. Os melhores moldes são os da cabeça! Cada barco tem a sua forma, as curvas têm de ser feitas com saber.

Gosto da minha terra. Tem mar, tem campo, tem festa. É uma terra boa. No verão, com a festa do 15 de agosto e a volta dos emigrantes, fica cheia de vida.
O ofício mudou um bocadinho com as máquinas, mas o essencial continua a ser à mão. E eu, que aprendi nos dois tempos, vou fazendo. Ainda guardo as ferramentas antigas: as relopas, os travos, as brocas. São a memória do tempo do músculo. E enquanto puder, continuarei. Porque gosto disto. E é sempre bom falar destas coisas.
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