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Evangelista Loureiro

Evangelista Loureiro, o Mestre Gadelha

Construtor naval de gema, Evangelista Loureiro, conhecido por Mestre Gadelha, é o guardião de um saber familiar com mais de quatro gerações. Aos 78 anos, mantém viva a arte de construir barcos de madeira para a arte xávega, moliceiros e botes de passeio, numa oficina onde o tempo parece ter parado. Num mundo que mudou à sua volta, ele permanece como a memória viva de um ofício que resiste, não pelo lucro, mas por pura paixão. Eis o seu testemunho.

Oficina de Evangelista Loureiro
O barracão que serve de oficina a Evangelista Loureiro ©Tiago Cerveira

“A madeira é viva, tem alma”

Chamo-me Evangelista Loureiro, tenho 78 anos e sou construtor de barcos, um ofício que já vem do meu bisavô. São quatro ou cinco gerações a passar esta arte de pais para filhos, sempre da mesma maneira.

Aprendi com o meu pai, e ele com o dele. Nasci no meio deste trabalho e, desde pequeno, via como era tudo feito à mão. Não havia máquinas. Era tudo a serrote, a enxó, a plaina, só a braço. A eletricidade só chegou aqui quando eu era adolescente. Até lá, era ginásio puro, só músculo.

Evangelista Loureiro na sua oficina
Evangelista Loureiro na sua oficina ©Filipe Morato Gomes

Antes, isto dava para viver. Havia catorze companhas de xávega na costa, agora há duas.

Evangelista Loureiro

Ao longo da vida, fiz de tudo um pouco: barcos da arte xávega, que são especiais, em forma de meia-lua para aguentar o nosso mar bravo; moliceiros, que são os mais bonitos e trabalhosos; e botes de passeio, como este dório que estou a fazer agora para a Lagoa.

O mais difícil é montar o barco. É a parte mais desafiante. Um barco tem três fases: a navegação, a posição e a estética. Tem de se acertar tudo. Mas a minha maior alegria é vê-lo a ganhar forma e, no final, pô-lo no mar e vê-lo a navegar direitinho. Nenhum barco meu se afundou. É a prova de que estão bem feitos.

Nunca quis trabalhar com fibra. Só madeira. Para mim, a madeira é viva, tem alma. Já fui ao mar para experimentar o meu trabalho, mas pescador nunca fui. Gosto é de terra firme.

Evangelista Loureiro na sua oficina
Evangelista Loureiro na sua oficina ©Filipe Morato Gomes

Antes, isto dava para viver. Havia catorze companhas de xávega na costa, agora há duas. Fazia barcos novos e muitas reparações todos os anos. Agora as encomendas são poucas. A arte está a desaparecer. Nunca quis mudar de vida, nem emigrar como fizeram muitos dos meus irmãos. Quem ganha a vida aqui não precisa de ir para fora. Isto nunca deu fortuna, mas deu para viver, e para mim isso sempre chegou.

Tenho setenta e oito anos e passo aqui quase todo o meu tempo. Venho de manhã, vou à horta ao fim do dia. É uma vida sossegada. Às vezes faço barcos só por gosto. Se aparecer alguém que queira comprar, vendo. Se não, fica.

Oficina de Evangelista Loureiro
Oficina de Evangelista Loureiro ©Filipe Morato Gomes
Ferramentas para a construção de barcos
Velhas ferramentas ferramentas usadas na construção de barcos ©Filipe Morato Gomes
Oficina de Evangelista Loureiro
Madeira usada na construção das embarcações ©Tiago Cerveira
Rádio antigo na oficina de Evangelista Loureiro
Rádio antigo na oficina de Evangelista Loureiro ©Filipe Morato Gomes

Os meus filhos não seguiram o ofício. Um está no Porto, outro é engenheiro informático. É outra vida, ganha-se mais e trabalha-se menos. Agora trabalho normalmente sozinho, mas às vezes a minha filha vem ajudar-me.

A madeira vem dos nossos pinhais. Já não há como dantes, os fogos de 2017 estragaram muita madeira boa. Escolho-a ainda no pinhal: tem de ser boa, direita, com veios certos. Depois uso moldes, alguns em madeira, outros na cabeça. Os melhores moldes são os da cabeça! Cada barco tem a sua forma, as curvas têm de ser feitas com saber.

Evangelista Loureiro na sua oficina
O construtor naval Evangelista Loureiro na sua oficina ©Tiago Cerveira

Gosto da minha terra. Tem mar, tem campo, tem festa. É uma terra boa. No verão, com a festa do 15 de agosto e a volta dos emigrantes, fica cheia de vida.

O ofício mudou um bocadinho com as máquinas, mas o essencial continua a ser à mão. E eu, que aprendi nos dois tempos, vou fazendo. Ainda guardo as ferramentas antigas: as relopas, os travos, as brocas. São a memória do tempo do músculo. E enquanto puder, continuarei. Porque gosto disto. E é sempre bom falar destas coisas.

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Por Filipe Morato Gomes 18/02/2026
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