Na Praia da Tocha, é o rosto e a força por trás da companha de arte xávega Pouca Sorte, que herdou do pai após ele ter falecido no mar. Com 62 anos, dos quais 36 dedicados a esta arte, Judite é uma das raras mulheres a comandar uma companha, desbravando um caminho tradicionalmente masculino com determinação e um profundo sentido de missão. Eis o seu testemunho.

“Não quis deixar morrer o que era dele”
Chamo-me Judite Gonçalves, tenho 62 anos, e há 36 que ando nesta arte. Isto já vem de família.O meu pai, o irmão e mais outro sócio fundaram a companha, que se chama Pouca Sorte, nome dado pelo meu avô. E a verdade é que tem sido uma luta. Mas enquanto houver força, a luta continua.
Depois, o meu pai faleceu aqui no mar, com 68 anos, e eu vim para cá porque não queria que isto acabasse. Era filha única, e alguém tinha que continuar. A morte do meu pai foi muito dura. O mar é traiçoeiro, ninguém manda nele. Mas pronto, ficou esta herança. Decidi continuar porque gostava disto e o meu pai também gostava muito.

A minha relação com o mar é de respeito e medo. O mar já me levou o pai. Não se pode brincar com ele.
Judite Gonçalves
A minha vida tinha sido sempre na agricultura. Vinha cá aos domingos e às vezes ajudava a vender o peixe, mas não estava aqui fixa. Quando vim, o meu sócio, que já é muito velho e faz agora 90 anos, ajudou-me muito, ensinou-me o que eu não sabia. E assim fui aprendendo. Aprendi a fazer as redes, a arranjá-las, tudo.
Naquele tempo, aparelhava-se o barco de outra maneira, era com boias. Eu ajudava-os no barco, levantava a rede na borda do mar, fazia comida, vendia o peixe. Aprende-se a fazer tudo, vendo os outros. Agora já não temos condições para arranjar, vêm outras pessoas costurar. Mas nunca quis que isto acabasse.

Mulheres, sou só eu. Agora há duas esposas de homens que trabalham para nós, mas assim, a mandar, sou só eu. E olhe que todos me respeitam. Agora estou mais eu a fazer de conta que no comando.
O meu filho Tiago começou aqui comigo tinha para aí uns oito anitos. Habituou-se a isto, gostou e agora é ele que está à frente disto. Ele é como o meu pai, é a mesma coisa, o mesmo jeito, o mesmo feitio, tem a coisa do génio e tudo. Tenho outro filho mais velho que seguiu outro caminho, não queria isto. O Tiago, no inverno, é obrigado a ir trabalhar para outro lado, mas tem um patrão que o deixa vir estes quatro meses para aqui. Ele percebe já disto tudo, habituou-se desde pequenino, sabe tudo.

Trabalham na companha o meu filho, um senhor que é o arrais e mais quatro empregados. São seis ao todo. Uns ficam nos tratores, outros tratam das redes. O que nos faz falta é um em cada trator a trabalhar, um a puxar no rolador e o outro em cima a colher a rede, para não ficar tudo na areia. O ambiente é bom, andam sempre a brincar uns com os outros. Já andamos juntos há muitos anos. Às vezes também temos discussões, mas é coisa do momento.
A pesca dura três meses, três meses e meio. Até meio de setembro, mais ou menos. Depois o mar fica bravo e já não há peixe, já não vale a pena aqui andar.
O meu dia a dia na safra é vir para cá de manhã e estar à espera até o peixe sair para vender. Depois vendo. Às vezes venho para cima fazer a comida e assim, mas eu não posso deixar o peixe sozinho, tenho que ir lá estar a vender. À noite é arrumar tudo e ir embora. Às vezes vamos duas vezes ao mar, de manhã e à tarde. Quando o peixe dava, chegámos a ir três vezes. Agora, se o lance não tem peixe suficiente, já nem vale a pena voltar.
Um dia bom é quando há peixe e se paga a toda a gente. É a gente ter peixe para vender, fazer algum dinheiro para lhes pagar a eles. O problema é que agora há pouco peixe, está muito fraquinho. A nossa salvação é vendermos aos baldões, é o que nos vale. Quando é muito é que se vende aos peixeiros. Porque se não fosse a praia não valia a pena. Agora só há dois peixeiros a vir aqui comprar. Se a gente não vender ao preço que eles dão, a gente não tem a quem vender. Eles é que fazem o preço, não é a gente. O intermediário é que ganha, não é quem tem o trabalho. O carapau é sempre o mais valioso, é o que nos vai valendo. A petinga já ninguém quer, a sardinha aparece pouco.

A minha relação com o mar é de respeito e medo. O mar já me levou o pai. Não se pode brincar com ele. Quando está bravo, ninguém se aproxima. Uma onda vem e leva tudo. E às vezes até dói o coração ver as crianças ali. Eu agora nem lá chego, se caio no mar, fico lá. O meu filho ia ao mar muitas vezes, mas agora tem que andar com o trator a empurrar, também já não vai.
Já ando nisto desde os vinte e seis, e desde essa altura que trago aqui uma dor que me foi crescendo. Começou-me a prender as ancas, as pernas, cada vez pior. Quando somos novos, agarramo-nos a tudo. E agora é que se paga o esforço. Com esta pouca mobilidade é cada vez pior. Isto é um trabalho duro.
Mas a gente gosta disto, habituámo-nos a isto. É a nossa vida. E é muito importante manter esta tradição viva. É a nossa história. É pena ver isto a acabar. Ainda aparece gente curiosa, a tirar fotografias. Enquanto houver mar e vontade, a gente cá anda. É bom que ainda nos oiçam. Assim, pelo menos, isto não se perde.
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