Com uma visão tão prática do mar como da vida, José Vieira, conhecido por Zé Dólar, herdou a arte xávega do pai, mas trouxe consigo uma experiência de vida única, moldada por anos no Canadá. Encara a pesca como um emprego, não um romance, e luta constantemente contra a burocracia, os fiscalizadores e o declínio da profissão para tornar o negócio viável. É o presidente da Associação de Pescadores da Arte Xávega. Eis o seu testemunho.

“O mar para mim não é romantismo, é um emprego”
Chamo-me José Vieira, tenho 62 anos e aqui na Praia de Mira toda a gente me conhece por Zé Dólar. A arte xávega entrou na minha vida através do meu pai. Quando era pequenito, até aos 11 anos, via os barcos aqui a trabalhar. Mas o meu pai era emigrante, andou com o barco pelo mundo fora e acabou por ir para o Canadá.
Eu fui criado e estudei lá, casei, e só mais tarde voltei para Portugal, porque a minha ex-mulher não gostava do Canadá. Depois do divórcio, fiquei por aqui. Isto era do meu pai, ele queria percentagens e isso não funciona. Ele deu-me isto para eu pôr a trabalhar como deve ser. E pronto, fiquei. Foi em 2004, já lá vão uns 20 anos. Depois, tu ficas velho.
Porque é que a gente gosta de um sítio? Pelas pessoas que conhecemos.
José Vieira

O que é especial nesta arte? Para começar, trabalhamos em terra, basicamente 90% do tempo. Estamos pertíssimo de casa, vemos o peixe ao vivo e temos interação com todo o tipo de gente, de todas as partes do mundo. É muito diferente de andar num barco no mar alto. Aqui temos uma interação com o público e com turistas do mundo inteiro. É por aí, eu gosto.
O mais difícil? A maquinaria. A manutenção da maquinaria. Isto é um ambiente muito agreste, é muita ferrugem, é muita avaria. A ferrugem ataca tudo e mais alguma coisa, a manutenção é constante. O trabalho é mais facilitado do que no passado, é para toda a gente. Já ninguém anda a puxar pelo cabo com os braços. Lembro-me de ver a praia com bois a puxar as redes até 95, 96. Isso acabou. Já ninguém cria esse tipo de gado, nem gente para o treinar. Gente é o que falta em Portugal. Há cerca de 30 anos, começaram a ficar riquinhos e já não se faz filhos. A juventude não quer ter nada com isto.

O dia a dia aqui na arte é trabalhar e ir ao mar buscar peixe, só que este ano não tem havido vida. Eu ainda arranjo, mas isto é mais dois ou três anitos e acabou. Acabou. Não há juventude.
O que me motiva para continuar? Eu faço dinheiro com isto. Não é nenhuma fortuna, mas faço dinheiro para passear, para comprar apartamentos e para fazer uma casa. Trabalho muito. E logo de início, aprendi a reparar tudo. Seja que avaria for, literalmente, reparo eu. Redes, basicamente, tenho experiência da pesca do Canadá, de andar no arrasto, nas redes de maio, pesca submarina… Pesquei a costa toda do Pacífico.
O peixe era muito mal aproveitado em termos de vendas. Havia uma certa maneira de fazer as coisas. Em 2010, dei um lance e trouxe 400 e tal caixas de carapau. Trouxe o peixe para cima, deixei 90 caixas para vender na lota, e quando voltei, era uma feira autêntica, estavam a roubar as caixas a 20 euros. Os pequenos compradores tinham comprado a 7 ou 8 euros e estavam a vender na minha cara a 20. E eu: “Ui, isto acabou.” Comecei a vender o peixe eu mesmo. Foi uma praga de fiscalização em cima de mim. Fui levado a tribunal não sei quantas vezes. A última vez, a juíza em Cantanhede disse para ser a última que eles aparecem lá, porque é perseguição.
Tive de comprar uma carrinha só para ter a licença para vender peixe. Foi para arranjar maneira de eu poder comprar e vender o meu peixe. Há programas da União Europeia para a pesca artesanal ter vendas mais próximas do consumidor, mas em Portugal esbarra tudo nos pormenores. Tens de ter contabilidade organizada, um programa de faturação, o peixe tem de passar pela lota e com gelo certificado…

Quando comecei em 2004, havia oito companhas, agora somos duas. Porquê? Porque vão à falência. Isto precisa de investimento. Este ano tive de comprar uma máquina de gelo e esta carrinha, que é dinheiro para o lixo, mas tem de ser. A malta aqui, quando apanha algum dinheiro, gasta.
O mar para mim, esse romantismo, não me diz nada. É um emprego. Se fores minimamente inteligente e não entrares na cena de ‘chapa ganha, chapa gasta’, arranjas dinheiro. O pescador é muito fraco na gestão. Muito fraco.

Não regressei contrariado. A minha ex não gostava muito do Canadá, mas eu andava lá a fazer a pesca da sardinha e do salmão e vinha viver cá o resto do tempo. Não tinha planos de cá ficar, mas com o divórcio, acabei por ficar.
Se gosto da Praia de Mira? Porque é que a gente gosta de um sítio? Pelas pessoas que conhecemos. As pessoas vivem em qualquer lado. Aqui tem o mar, é lindo, mas se não tivesse gente que conhecesse, era igual. Isso é tudo treta.
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